OS 7
Do violão amarelo aos grandes palcos
Uma trajetória para conhecer com calma. Role dentro do quadro para continuar.
O começo: um violão amarelo
Natural de Jequié, na Bahia, Roberto Sare encontrou a música ainda menino. Aos sete anos, um violão amarelo artesanal, presente do avô materno, abriu o caminho que seguiria por toda a vida. Era um instrumento simples, mas se tornou uma lembrança central de sua trajetória — uma história que mais tarde encontraria espaço na canção “Modão Tá na Moda”.
Aos dez anos, já cantava em festas e recebia pelas apresentações. Foi nessa fase que formou a dupla Beto & Júnior. Antes dos palcos maiores, vieram os encontros de família, as festas particulares e a experiência de aprender a cantar diante das pessoas.
As bandas e os caminhos da Bahia
Na adolescência, a música ganhou novos parceiros e outras formações. Aos treze anos, veio a experiência com a Brilho Magia. A caminhada também passou pela Adrenalina e pelo grupo Concorde, com Júnior e Vasco, na região de Cravolândia. Cada formação fazia parte de uma estrada que já vinha sendo construída muito antes da chegada a Sergipe.
Jequié, Cravolândia, Vitória da Conquista e Salvador são lugares dessa história. Em 1998, Roberto foi morar na capital baiana, onde buscou espaço para seu trabalho e participou de festivais, entre eles o Lapa Acústica. Dividia um quarto alugado com o amigo Cacau, dormia no chão sobre cobertores dobrados e improvisava um travesseiro com roupas dentro de uma fronha. Houve dias em que o almoço era miojo, mas a falta de estrutura não interrompeu a busca por uma oportunidade.
Em Salvador, também encontrou acolhimento na casa da amiga de infância Anne, do marido Marcos e do filho Vini. Uma ligação feita de um telefone público, perguntando se havia almoço para um “forasteiro”, terminou em uma semana de refeições, descanso e amizade. A passagem pela capital deixou dificuldades, encontros e aprendizados que atravessariam sua vida artística.
O Belvedere e uma nova direção
De volta aos shows no Belvedere Drinks, na Praça Rui Barbosa, em Jequié, encontrou um público que lotava a casa. Ali, já com anos de experiência, viveu uma fase importante da carreira e conheceu pessoas que fariam parte dos próximos passos. O caminho não foi uma linha reta: houve retornos, mudanças de cidade e a decisão de continuar cantando.
Aracaju: uma semana que virou vida
Em 7 de setembro de 2002, depois de investir em um CD de pop rock usando o nome Roberto Soares, aceitou o convite do amigo Ando e partiu para Aracaju. O plano inicial era ficar pouco tempo. A oportunidade de cantar em um bar, porém, abriu outras portas, e os primeiros meses na casa do amigo se transformaram no começo de uma nova vida.
Em dezembro, passou a morar em um pequeno escritório sobre uma farmácia, no Sol Nascente, adaptado de maneira simples para servir de casa. Em frente à praça estava o Rei da Sopa. Roberto pediu uma oportunidade a Isaac e começou a tocar ali, sentado, com voz e violão. O trabalho durou aproximadamente um ano e ajudou a firmar seu nome na cidade.
Vieram apresentações no Shopping Jardins e no Sergipanidade, onde conheceu Amorosa, cantora reconhecida em Aracaju e uma importante madrinha artística em sua trajetória. Foi ela quem lhe deu o nome Sary, usado naquele período.
Coqueiral: a quinta que mudou tudo
No Coqueiral, Roberto já cantava às sextas e aos domingos quando começou a inserir algumas músicas sertanejas no repertório de pop rock. A resposta do público foi imediata: todos cantavam e o ambiente se transformava. A reação convenceu o proprietário Carlito a entregar-lhe a quinta-feira para desenvolver o estilo.
No começo, apenas vinte ou trinta das cerca de 160 mesas eram ocupadas. Roberto disse que faria da quinta o segundo melhor dia da casa. Com o tempo, as mesas passaram a lotar e o público começou a chegar cada vez mais cedo. O lugar ficou conhecido entre estudantes como o “Campus 8 da UNIT”. Uma casa preparada para aproximadamente 600 pessoas chegou a receber públicos estimados em mais de mil, semana após semana.
O mais marcante não foi uma noite isolada. Foi ver as pessoas voltarem durante anos e transformarem a Quinta Sertaneja em um dos capítulos centrais da música ao vivo de Aracaju.
Fama, televisão e o primeiro disco
Em 2005, depois de várias inscrições, Roberto foi chamado para participar da seleção do programa Fama, da Rede Globo. A TV Sergipe passou a acompanhar parte de sua rotina, mostrando também o homem que existia fora do palco. A exposição apresentou seu trabalho a pessoas que ainda não frequentavam o Coqueiral e ampliou a força da Quinta Sertaneja.
Nessa fase, gravou seu primeiro CD de músicas inéditas, quase inteiramente autoral. Ao lado da cantora Pati Fonseca, a quem chama de Manha, buscou patrocínios para a gravação, a fabricação das cópias e o espetáculo de lançamento. Duas músicas precisaram ser retiradas depois que entraram nos planos de grandes nomes do sertanejo, e a primeira tiragem de mil CDs teve de ser refeita.
O projeto chegou ao público com uma campanha de seis outdoors em Aracaju e duas noites de lançamento no Coqueiral. Foram cem mesas vendidas em cada noite, transformando o disco em mais um marco daquela fase.
Itabaiana e sete anos de estrada
Enquanto mantinha a agenda no Coqueiral, Roberto também viajava com sua própria banda para apresentações no interior. Foi assim que participou da inauguração da Padaria do Chope, em Itabaiana. Os shows aconteciam aos sábados e repetiam uma cena inesquecível: quando a equipe chegava por volta das sete ou oito da noite, o bar ainda estava vazio, mas todas as mesas já estavam reservadas.
A relação com a Padaria do Chope durou sete anos e consolidou uma ligação especial com o público de Itabaiana. Coqueiral, interior, festas e eventos formaram uma agenda intensa e deram a Roberto uma experiência de palco construída diante de públicos muito diferentes.
Quando a voz pediu silêncio
Em 2017, durante uma apresentação, Roberto perdeu a voz no palco e viveu uma crise de pânico. O episódio interrompeu o ritmo que conhecia e abriu um período de aproximadamente vinte meses de autoconhecimento. Longe de ser apenas uma pausa profissional, foi uma reconstrução pessoal e artística.
A retomada aconteceu com novas formas de se conectar com o público, incluindo lives, vídeos e clipes. A experiência mudou sua maneira de compreender a música, a carreira e o próprio palco.
Uma identidade chamada Modaneiro
A ligação com o sertanejo raiz também abriu caminho para criar. Roberto uniu o sentimento do modão ao balanço do piseiro e deu nome a essa mistura: Modaneiro. A proposta conserva a interpretação e as histórias do sertanejo, com uma batida que convida ao movimento.
“Modão Tá na Moda”, “O Modaneiro é Bom” e a versão de “Irmão da Lua, Amigo das Estrelas” fazem parte desse trabalho. Nos clipes, a trajetória também aparece em “Perdeu”, com Paulinha Abelha, no medley Modaneiro e em “Quando a Gente Ama é Assim”.
A história continua no palco
A Comitiva do Chapéu, evento criado por Roberto, é mais um capítulo dessa relação com a música e com o público. Assim como nos shows, reúne a identidade sertaneja e a vontade de compartilhar canções que atravessam gerações.
Do violão amarelo aos palcos, permanece o que dá sentido à caminhada: cantar com verdade, respeitar as raízes e fazer de cada apresentação um encontro. É com essa bagagem que Roberto Sare leva o sertanejo, o modão raiz e o Modaneiro aos seus shows.